sábado, 25 de fevereiro de 2012

Em Córrego Dantas sobram dificuldades—mas desistir nunca


Lá se vão quase 400 dias da maior tragédia climática da história de Nova Friburgo e as imagens dos deslizamentos de encostas e enchentes, obviamente, não saem da memória de quem vivenciou o evento. E quem mora ou trabalha nos locais mais afetados ainda luta para dar a volta por cima. É o caso de muitos empresários do bairro Córrego Dantas, que acreditam no potencial do lugar e tentam reerguer seus negócios ali mesmo, deixando de lado as reclamações e procurando, cada um, fazer a sua parte para restabelecer a rotina no bairro às margens da RJ-130 (Nova Friburgo-Teresópolis).
O empresário Marcos Almeida, da San Marcus Estofados, por exemplo, lamenta os poucos investimentos no lugar neste pós-tragédia, o que dificulta o acesso dos clientes. Ele conta que antes o Córrego Dantas integrava um polo do circuito turístico Tere-Fri devido às muitas lojas e fábricas, três transportadoras e mais de dez confecções ali localizadas. Hoje lamentavelmente se observa no bairro o “turismo da tragédia”. São visitantes que procuram o bairro para filmar ou fotografar cenas impactantes de deslizamentos e do transbordamento do córrego, hoje um rio, que dá nome ao lugar. 
Marcos ficou 45 dias com a empresa fechada logo após a tragédia, levou sete dias para tirar toda a lama da sua fábrica de estofados, no subsolo do showroom, e não pensa em ir embora do lugar mesmo tendo deixado de vender muitos móveis desde a triste data. A frequência de clientes caiu consideravelmente, afirma ele. 
“Muita gente desiste de vir aqui por causa da lama em dias de chuva com o despejo de uma enxurrada na pista próximo ao Hospital São Lucas. Quando a chuva para, fica a poeira, que é outro transtorno”, observa Marcos, que abriu ano passado uma filial em Olaria. 
O empresário também sofre com a baixa na média de pedidos de clientes de fora. Antes da tragédia as entregas de móveis no Rio de Janeiro eram feitas a cada 15 dias. Depois da tragédia as viagens à capital caíram absurdamente. Mas quem disse que tudo isso é motivo para desistir?

Empresário quer lançar campanha para valorizar o que o município tem de melhor 


Marcos Almeida já deu a largada na tentativa de mudar a imagem de Nova Friburgo, deixando de lado a lama e a tragédia e investindo na beleza natural da cidade. Para tanto, ele já se encarregou de postar nas redes sociais uma série de fotos das muitas e raras belezas friburguenses, conseguindo muitos adeptos. 
“Que tal fazermos o mesmo? É preciso valorizar o que temos de bom. E Nova Friburgo tem muito de bom sim. Temos um ar-condicionado natural, uma natureza de total beleza, com montanhas e áreas ainda intocadas e de pleno verde e muitas flores. Precisamos postar isso nas redes sociais e fazermos uma campanha positiva para trazer os turistas de volta e fazê-los saber que Nova Friburgo está viva e funcionando”, diz Marcos. 
O empresário lembra que “muita coisa há para ser feita sim, mas nem tudo foi atingido”, valoriza, tentando apagar a imagem de destruição a que Nova Friburgo foi associada na mídia nacional. 


Empresa de acessórios para lingerie teve queda de 35% no faturamento, mas acredita na recuperação da cidade

Os empresários Roberto Fernandes de Oliveira e Gilson Rodrigues de Faria, da RG Designer—que fabrica acessórios para lingerie e que está baseada no Córrego Dantas há seis anos—tinham tudo para mudar de endereço após o evento climático. Da empresa foram retirados dezenas de caminhões de lama. 
Roberto conta que não faltaram propostas e tentações para abandonar tudo e recomeçar as atividades da RG em outra cidade após 15 dias sem luz e 75 sem telefone e internet. Otimistas, os empresários não titubearam e decidiram se reerguer em Córrego Dantas, onde a empresa se solidificou.
“Confesso que foi uma decisão difícil, pois temos clientes em várias regiões do Brasil e a maioria tem receio em nos fazer novos pedidos, principalmente em quantidades maiores. É natural a dúvida que um novo evento da natureza possa nos impedir de honrarmos nosso compromisso”, conta Roberto, que amarga queda de 70% em média na clientela local. O faturamento do ano passado fechou com 35% a menos que o esperado. 
“Mas não tem problema. Vamos conseguir superar essa fase e investir na recuperação de Nova Friburgo. O povo daqui tem disposição para o trabalho. Por que não criar novas oportunidades gerando emprego e mais distribuição de renda?”, questiona Roberto, que mesmo ante a crise mantém 45 empregos diretos e 20 indiretos.
O empresário observa que falta “injeção de ânimo” em toda Nova Friburgo. Roberto lamenta que logo após a tragédia muitos funcionários se demitiram e deixaram a cidade para tentar a vida em outro lugar. “O trauma coletivo ainda persiste. Muitos ainda parecem estar anestesiados. O cenário ao nosso redor ainda é muito triste. É preciso obras de reconstrução para mudar a imagem do bairro. Cada um deve fazer a sua parte”, sugere.





Roberto Fernandes de Oliveira, da RG Designer: recusa de pedidos para deixar Nova Friburgo por acreditar na capacidade friburguense de se reerguer




Muitos empresários se esforçam para dar a volta por cima, mas as cenas observadas em Córrego Dantas ainda são de muita destruição