Chegando ao fim do estado de calamidade decretado devido à tragédia de janeiro, apenas oito obras das 244 que precisarão ser feitas em Nova Friburgo estão em execução pelo governo do estado. Sem início previsto para construção das casas populares, pontes e muros de contenção, moradores de Conselheiro Paulino optaram em voltar para seus imóveis, mesmo estes ainda estando interditados pela Defesa Civil.
De acordo com o coordenador do órgão, Tenente Coronel Bombeiro Militar Roberto Robadey, nesse período de estiagem, que vai até novembro, não há grandes riscos para essas famílias, desde que não haja forte precipitação no município. Contudo, estão sendo realizadas junto com funcionários do estado novas vistorias que têm como objetivo conscientizar esses moradores de que devem procurar outro imóvel até que sejam feitas as obras de contenção. E em alguns casos onde os imóveis precisam ser demolidos será feito um trabalho social de realocação dos moradores.
Mas não é simples fazer com que as pessoas deixem suas casas próprias, na qual vivem há anos, para depender do aluguel social. Principalmente em casos como da senhora Alair Lopes, moradora da Rua Waldemar Belém Ponciano, do 6º distrito, cujo imóvel não sofreu nenhum dano estrutural, mas que se encontra em área de risco devido ao deslizamento que ocorreu no local. “Nós estamos morando aqui, não nos cadastramos no aluguel social porque quando aconteceu a tragédia na nossa casa não atingiu nada, só veio lama até o portão. O imóvel está interditado por causa da barreira que desceu, não pela estrutura” – explica a moradora.
Assim como ela, outros moradores do local também estão preocupados com a situação. Eles chegaram até a colar um cartaz na casa que foi destruída pelo deslizamento pedindo um laudo da Defesa Civil sobre o perigo. “Estamos cobrando porque foi falado que a casa seria demolida, depois disseram que o Ministério Público embargou a demolição e até agora estamos esperando uma solução” – diz Alair, que ressaltou que os imóveis vizinhos também estão interditados.
Ao todo são 104 locais no município onde terão que ser removidos imóveis. Em Conselheiro Paulino ocorreram 24 deslizamentos, contabilizando também outras áreas que fazem parte do distrito, como Barão, Jardinlândia, Prado e Ouro Preto, que somam mais 17 locais. Nesses bairros serão feitas novas visitas e o que tiver que ser demolido será encaminhado para a Prefeitura, cujo critério utilizado para execução do trabalho é priorizar os lugares com maior número de demolições. “São 104 locais e em alguns apenas dois ou três imóveis têm que ser demolidos, então ficarão por último” – explica Robadey.
Segundo o coordenador, todas as pessoas que se encontram em imóveis interditados serão removidas e auxiliadas. A princípio o trabalho que será feito será de orientação e cadastramento para recebimento do aluguel social, mas se mesmo assim houver insistência serão cortados os serviços de distribuição de água e energia elétrica. “Nesse período de estiagem não tem tanto problema, os mais graves a gente já resolveu. Agora contamos com a responsabilidade das pessoas, esses moradores têm que ter consciência de que tem que sair, consciência do valor da vida deles e nós vamos tentar ajudá-los. Todos esses locais serão visitados por equipes da Defesa Civil e do trabalho social do estado” – afirma Robadey.
Com o fim do estado de calamidade e a normalização do serviço na Defesa Civil, que teve uma diminuição de contingente com a saída dos engenheiros contratos para ajudar nos processos de vistoria pode haver uma desaceleração nos trabalhos, o coordenador do órgão acredita que até o início do período das chuvas tudo já terá sido feito. “O fim do estado de calamidade atrapalha um pouco porque tínhamos mecanismos de compra e contratação mais rápidos, agora é trabalhar com o mecanismo jurídico que temos” – diz o coordenador.
As obras necessárias estão a cargo do governo estadual, que delegará a execução conforme as prioridades escolhidas, tendo sido responsabilizado ao município apenas que fizesse a relação das mesmas. Enquanto isso, os moradores do 6º distrito aguardam apreensivos até que possam enfim ficar em segurança dentro de suas casas. “Agora eu estou dormindo mais tranquila, nesse período que não tem chuva forte, mas sinceramente ainda estou em pânico, porque ouvi tudo e vi cair a barreira na frente da minha casa” – conta Alair Lopes.
Imóveis a serem demolidos na Rua Waldemar Belém Ponciano devido deslizamentos de terra
Cansados de esperar pela construção de casas populares, muros de contenção e obras de reestrutura, famílias retornam para imóveis em áreas de risco
Cartaz na Rua Waldemar Belém Ponciano: “Nós, moradores desta localidade, cobramos das autoridades um laudo técnico que esclarece o grau de risco que os moradores dos lotes 5 ao 37 estão sofrendo”